22 de out de 2008

Benvenuto Cellini


Foto Kunsthistorisches Museum, Viena

Cellini nasceu em 03 de novembro de 1500 em Florença, e desde cedo decidiu tornar-se um ourives. Aos 14 anos, começou a estudar no atelier do pintor Filippino Lippi, onde aprendeu a principal regra da Escola Florentina renascentista: o design tinha que ser a base de toda obra de arte. Devia servir para planejar o trabalho em todos os mínimos detalhes antes da execução da obra, desde os elementos decorativos até as soluções técnicas. Ele admirava acima de tudo os trabalhos de Miguelangelo e Leonardo da Vinci, e dizia que se estes fossem colocados juntos, lado a lado, representariam o que de melhor se poderia fazer em arte no mundo. Cellini almejava a excelência artística. Para usar um conceito da sua época, deseja tornar – se “universal".
Aos 19 anos, Cellini mudou-se para Roma. Foram anos de grande produtividade: medalhões em ouro talhado com cenas da mitologia grega, um botão para o manto do Papa Clemente VII, e belíssimas moedas e jóias para a corte papal e também para vários nobres romanos. Depois de um curto período em Florença, devido a desentendimentos com o Papa, retornou a Roma, onde continuou a atender uma rica clientela e acumular considerável fortuna pessoal. Com a morte do Papa Clemente VII, o novo Papa Paulo III encomendou à Cellini uma capa em ouro trabalhado e pedras preciosas para o Livro de Orações, presente papal ao Imperador Carlos V. Apesar das encomendas na corte papal, Cellini desentendeu- se em Roma novamente. Viajou para Paris, onde tentou, em vão, entrar para o serviço do rei Francisco I, conhecido por ser um grande mecenas.
Depois do seu novo retorno a Roma, em outubro de 1538 foi preso no Castelo Sant’Ângelo sob a alegação, provavelmente falsa, de que tinha roubado gemas preciosas da tiara papal. Em 1539, Cellini é libertado da prisão através da intervenção do rei francês Francisco I, que lhe oferece os mesmos termos de trabalho que havia oferecido anteriormente a Leonardo Da Vinci.
À serviço de Francisco I, Cellini pôde finalmente realizar sua ambição: além de ourives, ser um mestre na arte da escultura. Mas apesar de trabalhar em excelentes condições para o rei francês, foi irresistível para Cellini retornar à sua cidade natal: queria ter chance de provar sua excelência como escultor e conquistar assim o direito de fazer parte dos mestres da arte escultórica, na tradição de Donatello e Miguelangelo. Da sua genialidade surgiram então várias esculturas, algumas monumentais, a maioria considerada obras-primas.
Escreveu em 1559 a sua autobiografia, intitulada “A Vida de Benvenuto Cellini" e, a partir de 1565, começou a escrever seus dois famosos tratados: “Tratado sobre Ourivesaria" e o “Tratado sobre a Arte da Escultura". Seus últimos anos em Florença foram amargos e solitários e, ao morrer em 1571, deixou todas as obras encontradas em seu estúdio para o filho do duque florentino Cosme I de Médicis, Francisco I.
Apesar de ter produzido muito como ourives durante toda a sua vida, um dos poucos trabalhos de Cellini que chegaram até os nossos dias foi o famoso "Saleiro" feito para Francisco I, atualmente no museu Kunsthistorische de Viena, Áustria. Cellini o descreve assim em sua autobiografia: “É oval na forma e tem por volta de duas terças partes do comprimento de um braço. Toda a peça foi trabalhada com um cinzel. Eu retratei Netuno e a Terra, sentados em lugares opostos e com as pernas entrelaçadas. As ondas da água foram belamente esmaltadas na sua cor natural. A Terra está representada pela figura de uma linda mulher que segura a cornucópia em sua mão. Ela está completamente nua, assim como Netuno. Eu fixei a peça em uma base de ébano, a qual decorei com quatro figuras douradas em alto relevo. Estas quatro figuras representam a Noite, o Dia, o Anoitecer e o Amanhecer
”.

11 de out de 2008

Joalheria Romana: Costumes e Leis

Casa dos Vettii
Foto Soprintendenza Archeologica di Pompei


As palavras em latim Aurifex Brattiarius inscritas em uma placa avisavam aos passantes em frente à loja que um ourives ali trabalhava. Os ourives do antigo Império Romano vinham predominantemente do Oriente e preferiam trabalhar nas cidades principais do Império como Alexandria, Antioquia e na própria Roma. Uma das mais óbvias razões para a grande quantidade de ourives em Roma era a grande riqueza das famílias patrícias. Estas pequenas dinastias possuíam uma enorme quantidade de jóias, além de baixelas e objetos decorativos em ouro e prata.
Os ourives eram organizados em guildas, e seu trabalho chegava às mais distantes províncias romanas, sendo extremamente apreciado. Na Casa dos Vettii, em Pompéia, ainda podemos admirar um afresco decorativo mostrando dois cupidos entretidos na fabricação de jóias. As jóias também serviam para adornar estátuas: diademas, braceletes, colares e brincos decorados com pérolas, esmeraldas, cristais de esmeraldas eram as gemas mais utilizadas para aumentar a magnificência das estátuas romanas, que eram coloridas, bem diferentes das que apreciamos em museus, praças e palácios hoje em dia.
O ouro era o metal mais valorizado pelos antigos romanos. Como não era sujeito à corrosão nem se deteriorava, sendo então eterno e incorruptível, era o metal que mais refletia os ideais romanos. Durante a República, os anéis de ouro só podiam ser usados por uma determinada classe social ou ofertados em ocasiões especiais, como em honras militares, aos generais e oficiais vitoriosos. Com o fim do período republicano, o uso estendeu-se a todos os cidadãos romanos.
Os cidadãos romanos podiam amar jóias, mas a Lei Romana impedia os excessos. O primeiro código de lei romano, chamado de Lei das Doze Tábuas, determinava a quantidade de ouro que podia ser enterrada junto com um corpo. No século III AC, a Lex Oppia fixava em meia onça de ouro a quantidade que uma mulher poderia usar e isto, sem dúvida, modificou a maneira de vestir de muitas das matronas romanas. Evidências históricas, porém, nos mostram que foram achados meios de compensar os limites da lei.
O historiador Plínio, o Velho (23-79 DC), conhecido na História pela aguda observação da sociedade romana de seu tempo, nos conta que mulheres podiam usar três pérolas de grande tamanho em cada orelha e que a Imperatriz Lollia Paulina, terceira esposa do imperador Calígula (12-41DC), utilizava uma quantidade excessiva de jóias até mesmo em ocasiões onde a austeridade era necessária, como nos funerais: “Eu vi Lollia Paulina (então esposa do imperador Calígula), apesar de não ser uma grande ocasião nem estar ela vestindo seu traje cerimonial, mas sim convidada de um jantar de comemoração de casamento. Eu a vi, inteiramente coberta por esmeraldas e pérolas brilhando sobre sua cabeça, cabelos, fita decorativa, colares e dedos, o valor de tudo somando-se 40 milhões de sestércios, um valor que ela estava pronta a provar com recibos. Não eram essas jóias, presentes de um pródigo imperador, mas sim herança de família, necessário dizer produto de pilhagem das províncias. Este era o objetivo de seus peculatos- este a razão pelo qual Lollius fez-se infame em todo o Oriente, recebendo suborno de príncipes até finalmente suicidar-se com veneno, quando Caio César, o filho adotado de Augusto, formalmente renunciou a sua amizade. Ao final da cerimônia de casamento, este seu avô a exibiu sob a luz de lamparinas, ornada pelo valor de quarenta milhões de sestércios.” (tradução livre da autora sobre trecho da obra ‘História Natural: Uma Coletânea’ de Plínio, o Velho).