16 de dez de 2011

La Peregrina


  
Foto: Cartier


Perfeitamente criadas pela natureza e sem necessidade de nenhum tipo de arte para aperfeiçoar sua beleza as pérolas são, provavelmente, das mais antigas gemas a serem conhecidas pelo homem, ainda na Pré-História.
     Em todas as antigas civilizações a pérola exerceu fascínio absoluto e foi símbolo de pureza e castidade na maioria das culturas e religiões da Antiguidade. O historiador romano Plínio, o Velho, em seu livro “Historia Naturalis” escreve (tradução livre de minha autoria): “A mais rica mercadoria de todas, e a mais soberana de todas as comodities no mundo, é a pérola.”  
     A pérola é uma gema formada dentro de conchas marinhas devido à irritação do molusco por grãos de areia. Existe a pérola cultivada e a natural, sendo que a primeira é cultivada nas chamadas “fazendas de criação de pérolas”, onde a irritação do interior da concha é feita pela mão do homem. A pérola natural é a mais valorizada no mercado, porque é extremamente rara.  A pérola de água-doce, que ocorre em rios e lagos (naturalmente ou em fazendas de cultivo), em geral é menos valorizada que a marinha. A gema é encontrada em todos os continentes, com maiores ocorrências (naturais ou cultivadas) na China, Japão, Sri Lanka, Golfo Pérsico, Golfo do Áden, Mar Vermelho, Mianmar, Tailândia, Coréia do Sul, Venezuela, Panamá, Equador, Peru, México, Austrália, Nova Zelândia e EUA; em rios da Irlanda, Rússia e China e em lagos, principalmente no Japão.
     Ao longo de mais de 2.000 anos, muitas pérolas ou coleções de pérolas tornaram-se famosas, por seu intrínseco valor ou pela associação histórica. A famosa La Peregrina é uma delas. A mais celebrada de todas as primeiras pérolas encontradas nas Américas, foi também conhecida como Pérola de Felipe II (1527-1598), rei da Espanha.
     De acordo com alguns historiadores, a gema foi encontrada em 1560 no Golfo do Panamá por um escravo, que ganhou a liberdade por ter achado a gema. A pérola, a maior já encontrada até então (seu peso original era de 223,8 grãos ou 55,95 quilates, iguais a 11,2 gramas) e em forma perfeitamente simétrica de pera, foi presenteada ao rei por Don Diego de Temez, administrador colonial espanhol do Panamá.
 National Portrait Gallery, Londres
 
     A pérola foi presenteada a então rainha da Inglaterra, Maria I, noiva do rei espanhol. Depois da morte da rainha em 1558, a gema retornou ao acervo das joias da Coroa da Espanha, onde permaneceu por quase três séculos. Em 1808, José Bonaparte, irmão mais velho do imperador francês Napoleão I, torna-se rei da Espanha. Após cinco anos de reinado, a França perde a Batalha da Vitória, e o agora ex-rei retorna ao solo francês levando consigo várias joias da Coroa espanhola, incluindo La Peregrina. Ao falecer, José Bonaparte deixou a pérola para seu sobrinho Carlos Luís Bonaparte, mais tarde Napoleão III, imperador da França. Durante seu exílio na Inglaterra, o ultimo monarca francês vendeu a pérola para James Hamilton, duque de Abercorn, o qual presenteou sua esposa Louisa. A família Hamilton foi proprietária da gema até 1969, quando a venderam em um leilão da Sotheby’s em Londres.
 Elizabeth Taylor e La Peregrina

     No leilão da Sotheby’s londrina, a pérola foi arrematada pelo ator Richard Burton por 37 mil dólares para presentear sua esposa a atriz Elizabeth Taylor no dia de São Valentim (Dia dos Namorados em vários países). A atriz encomendou à Maison Cartier que redesenhasse o colar, o que foi feito colocando La Peregrina em meio a outras pérolas, diamantes e rubis. Liz Taylor pode ser vista em diferentes fotografias usando o maravilhoso colar com a histórica gema, até a sua morte em 23 de março de 2011.

Foto: Cartier 
 
     Em dezembro de 2011 La Peregrina, montada no colar Cartier, é vendida em leilão pela Christie’s de Nova York. Com preço estimado entre dois e três milhões de dólares, o colar bateu recorde de preço, sendo arrematado por 11.842.500,00 dólares. A pérola magnífica que encantou a nobreza européia por tantos séculos e adornou uma das mais lindas atrizes de Hollywood, agora tem outro dono.